A cultura coreana em Campo Grande

Cabelo preto e bem liso. Olhos puxados. Uma voz baixa e educada. Ao te cumprimentar, primeiro se curvam e depois estendem a mão. Provavelmente, a primeira coisa que você pensou foi que essa pessoa é japonesa, mas já passou da hora de rever seus conceitos. Para divulgar mais sobre a cultura sul coreana, foi realizado um festival em Campo Grande, reunindo descendentes do país, japoneses e também brasileiros apaixonados pela cultura oriental.

Pode parecer difícil para um leigo diferenciar entre coreanos, japoneses e chineses, mas é tudo uma questão de tempo. Não existe uma regra para isso, então o modo mais confiável é aprender sobre a cultura de cada país, e aprender muito além do que simplesmente saber de onde a pessoa veio.

Você com certeza já ouviu a música “Gangnam Style”, cantada pelo PSY. Aquela da coreografia do cavalo, que quebrou recordes de visualizações no YouTube e dominou as rádios do país todo. Isso foi em 2012, e foi a porta de entrada para muitas pessoas conhecerem pelo menos um pouco da música sul coreana. Só que, novamente, não é só PSY que existe e faz sucesso. Mas chegaremos lá depois.

A popularização da cultura da Coreia do Sul vai se espalhando pelo mundo todo, e óbvio que chegou ao Brasil também. É o que chamam de “Onda Hallyu”, pois a disseminação da cultura se espalha como uma onda do mar. Muitos são os atrativos para conhecer e gostar de músicas, filmes, novelas e tradições de um país localizado no outro lado do mundo – ou melhor dizendo, a um oceano de distância.

Claro que essa popularização chegou a Campo Grande. A capital tem a terceira maior população japonesa do país, então já está acostumada a eventos orientais, como o tradicional Bom Odori – festival de música e dança, em agradecimento pela agricultura -, o Undokai, que é o equivalente ao Dia das Crianças, e o Festival do Sobá, prato este que foi reconhecido como bem imaterial do Estado.

Outro tipo de evento que atrai muitas pessoas são os voltados aos animes e mangás (desenhos animados e histórias em quadrinhos japoneses, respectivamente), além de jogos, filmes e seriados da moda. Ou seja, um evento que mistura a cultura pop e nerd ocidental e oriental. Nestes espaços, a cultura coreana começou a ganhar mais visibilidade, mas também chegaremos lá depois.

Porém, pela primeira vez, foi realizado um evento com foco apenas na cultura sul coreana. O “1º Torneio de Discurso Coreano” aconteceu em dezembro de 2015, na Campo Grande Escola de Coreano, localizada na rua José Eduardo Rolin, e reuniu aproximadamente 150 pessoas. Além do já citado torneio, o festival também disponibilizou Hanboks, que são roupas tradicionais para os convidados provarem, pratos típicos e um animado concurso de dança e canto.

O professor da escola de coreano, Hae Ung Jang, contou que a ideia do festival veio com o objetivo de um intercâmbio cultural entre Coreia do Sul e Brasil, e também por perceber que seus alunos gostam muito da música e das novelas coreanas. Resolveu então juntar tudo isso em um evento para alunos, fãs da cultura e familiares.

Apesar da pequena divulgação, feita pelas redes sociais, o evento estava animado, com bastante música e comidas coreanas. Muitas pessoas já estão acostumadas a comer sushi, mas foi a primeira vez que provaram gimbap. À primeira vista parece com um sushi, mas ao invés do salmão cru, o prato coreano tem como recheio calabresa, pepino desidratado, cenoura refogada e ovo.

Além dele, outras comidas típicas também estavam à venda: o mandoo, um bolinho cozido em formato triangular, feito com massa de pastel e recheado de carne moída e repolho; o dukbokki (também escrito como tteokbokki), feito com o arroz doce tteok, com um molho à base de caldo de anchova, cebola, alho, carne moída e muita pimenta; e o bibimbap, arroz com carne, legumes e mais pimenta. Aliás, quase todas as comidas coreanas são bem apimentadas!

Como resultado do concurso de discurso, a estudante Jong Sun ganhou uma bolsa de estudos para passar seis meses na Universidade de Busan, na Coreia do Sul. Tendo família coreana, Jong Sun estuda o idioma há três anos na Campo Grande Escola de Coreano, e comemorou o resultado. “Eu não estava muito confiante que iria conseguir, foi uma surpresa na verdade. Estou bem feliz, quero poder representar todo mundo aqui quando for para lá.”

Outra grande atração do evento foi o concurso de dança e de canto. Grande parte do público era formada por adolescentes, com idades entre 14 e 22 anos, e que têm em comum a paixão pela música sul coreana, mais conhecida como K-pop (abreviação de Korean pop, ou seja, pop coreano). Muitas vezes, é a partir do K-pop que a pessoa tem o primeiro contato com a cultura sul coreana.

E aqui abrimos um parênteses para falar dos eventos de cultura japonesa que acontecem em Campo Grande, como o Anime GAM e o Anime Revolution. Neles, são oferecidos workshops de cosplays (as fantasias de personagens de filmes, jogos, seriados ou quadrinhos), palestras com dubladores ou participantes de concursos internacionais de cosplay, jogos de cartas ou eletrônicos, etc. É um grande universo reunido em um só lugar, e são sempre eventos bem movimentados.

Mas foi só no ano passado que um evento desses reservou um espaço ao público fã de K-pop. No Parada Nerd foram feitos jogos de pergunta e resposta, sorteio de brindes e álbuns, além da venda de produtos diversos, como camisetas e canecas customizadas com os grupos de música. Muitos (não todos) os fãs de K-pop começaram a se aventurar na cultura oriental por meio desses eventos mais japoneses.

Foi o caso de Carolina Fagundes, que descobriu o estilo musical em 2009. Já familiarizada com a cultura japonesa, ela disse que gostar da coreana foi um processo contínuo e teve um fator muito importante: “Porque eu gosto muito de dança, então isso é um grande atrativo pra mim. As coreografias muito bem elaboradas e a música também é bem contagiante. Tudo isso chamou muito a atenção, é isso que eu mais gosto.”

O K-pop é bastante conhecido por suas danças complexas, e o gênero vem se popularizando cada vez mais entre os jovens. Grandes grupos de músicas já vieram ao Brasil para fazer shows, como o Super Junior. Em São Paulo, em 2013, fizeram um show único para mais de sete mil pessoas. Outros festivais já foram realizados no país, como em 2014 quando o Music Bank trouxe seis grupos de k-pop e uma cantora solo.

A apresentação de dança no evento de Campo Grande foi uma oportunidade dos fãs mostrarem o quanto gostam do K-pop. E não só fãs da capital participaram. Uma turma de estudantes das cidades de Guia Lopes da Laguna e Jardim vieram só para se apresentar no Festival.

A professora de dança Letícia Pontes já utilizava algumas músicas coreanas para dar aulas às suas turmas intermediárias com coreografias próprias. Sabendo que o K-pop vem conquistando cada vez mais pessoas, abriu uma turma para ensinar as danças originais. “Uma das alunas viu uma aula pelo Facebook, entrou em contato comigo e com meu diretor, e nasceu a iniciativa da turma.” O grupo criado nas aulas, chamado LETSHINE, se apresentou pela primeira vez no Festival e ficaram em 4º lugar no concurso. “Os meus outros alunos acabaram conhecendo outras coreografias. No espaço agora também tem coreografias de K-pop, porque gostaram do estilo, gostaram da música”.

Um dos integrantes do LETSHINE é o estudante Vinícius Fernandes. Ele já dançava hip hop e street dance, e começou a dançar K-pop com o grupo criado por Letícia. Apesar do preconceito que ainda existe com a música coreana, Vinícius reforça algo muito importante para quem não conhece muito sobre o estilo. “Mas tem que ter o respeito com essa cultura, e conhecer. Se não conhecer não tem direito de falar mal”.

Outro atrativo para começar a gostar da cultura coreana são seus seriados, chamados popularmente de doramas. São basicamente as novelas deles, com média de 16 a 20 episódios de uma hora de duração. E, assim como os filmes, existem os doramas de comédia romântica – que fazem mais sucesso -, suspense, drama, terror ou thrillers policiais. É uma ótima maneira de se conhecer o idioma e algumas expressões, os costumes, e também de se visualizar melhor as cidades. A maioria dos seriados é filmado na capital Seul, mas muitos são feitos em cidades do interior, como Busan. E em cada cidade, o sotaque coreano muda um pouco – assim como acontece aqui no Brasil, onde cada estado tem um jeitinho próprio de falar.

Mas não são só apenas adolescentes que se interessam pela cultura. A empresária Rosiany Hilário morou por um ano na Coreia do Sul, e foi a apresentadora do Festival. E no tempo que ela passou no outro país, começou a admirar ainda mais a cultura. “Eu me apaixonei mais foi quando eu vi a forma de olhar a vida, o jeito que eles trabalham, o jeito que eles estudam, o jeito que eles botam uma meta, e para mim eles são exemplo”.

Em resumo, podemos dizer que a cultura coreana vem ganhando cada vez mais espaço na mídia brasileira, conquistando fãs de todo o mundo, e levando costumes muito diferentes da brasileira as pessoas. E você, ficou curioso para conhecer mais sobre a Coreia do Sul?

Coreia do Norte x Coreia do Sul

Para entendermos mais sobre a diferença entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul, vamos a uma pequena aula de história. Desde 1910, a Coreia era um país único dominado pelos japoneses. Na Segunda Guerra Mundial e após as bombas atômicas, o Japão se rendeu e o território da Coreia foi dividido e dominado por outros dois países: a parte Norte pela União Soviética, e a parte Sul pelos Estados Unidos. E em 1948, foi instaurado os novos governos: a República Popular Democrática da Coreia (Coreia do Norte) com o sistema comunista; e a República da Coreia (Coreia do Sul) com o capitalista.

Apesar da divisão, os países ainda queriam se unificar novamente. Ou melhor, queriam estabelecer o socialismo como sistema político único. Com essa intenção, os norte-coreanos tiveram a ajuda da China e da União Soviética para invadir a Coreia do Sul, em 1950. Deu-se início à Guerra da Coreia, que só teve fim em 1953, após a assinatura do Armistício de Panmunjon. A “paz” foi estabelecida, mas até hoje as ameaças de ataques nucleares por parte da Coreia do Norte ainda provoca tensões entre os países – e o mundo todo também se assusta.

A Coreia do Norte hoje é uma ditadura governada por Kim Jong Un, além de ser um dos países mais fechados e repreensivos do mundo. O Governo controla a mídia, limita o acesso à internet e o uso de celulares. Existe também o culto ao ditador e seus antepassados. Grande parte das músicas feitas na Coreia do Norte vangloriam os ditadores Kim Il Sung (que governou de 1948 até 1994), e Kim Jong Il, que morreu em 2011. A economia é totalmente nacionalizada, ou seja, alimentação, habitação, saúde e educação são oferecidos gratuitamente pelo Estado.

Já a Coreia do Sul é atualmente uma república democrática, governada pela presidente Park Geun Hye, a primeira mulher eleita ao governo, com mandato de 2013 à 2018. Sua economia é liderada por grandes conglomerados, como as multinacionais Samsung, LG, Hyundai e Kia, fazendo com que o país seja o mais rico dos Tigres Asiáticos e quarta maior economia da Ásia. Completamente ao contrário da Coreia do Norte, os sul coreanos têm acesso à internet em banda larga – a maior do mundo, de 100 Mbps. A educação tem gastos correspondes à 4,2% do PIB do país, que é de US$ 1,449 trilhão.

Curiosidade

Na cultura coreana, cada pessoa já nasce com um ano de idade. Como assim? A partir do momento em que existe um bebê no útero da mãe, os coreanos já consideram seu tempo de vida. E ao nascerem, ao invés de terem apenas nove meses de idade, arredondam para um ano completo (doze meses). Além disso, todas as pessoas acrescentam um ano de idade no Ano Novo!

-Vou explicar: você tem 22 anos. Na virada do ano, você ficar mais velho, mesmo não sendo seu aniversário. Então, no dia 1º de janeiro, terá 23 anos.

-Mas e no meu aniversário eu farei 24?!

-Não! No seu dia, você irá comemorar normalmente os seus 23 anos, com bolo e tudo que tem direito. Dá para fazer essa conta matemática de um jeito bem simples:

Ano em que estamos – ano de seu nascimento + 1 = sua idade coreana.

Exemplo:

2016 – 1993 + 1 = 24 anos.

Complicado? Um pouco, mas você logo se acostuma a fazer essa conta bem rapidinho.

Não é tudo igual!

Coreano, japonês e chinês podem mesmo parecerem iguais fisicamente, mas os idiomas são muito diferentes – e seus alfabetos também!

O coreano tem 14 consoantes e 10 vogais, e é um idioma escrito em sílabas. Então você consegue escrever o seu nome usando o hangul, ou seja, o alfabeto da Coreia.

Meu nome é escrito assim: 이사도라

Também dá para escrever o hangul romanizado, ou seja, usando as letras do nosso alfabeto. Meu nome seria, literalmente, escrito: “i-sa-do-la”. O som do R é falado como L.

Já o japonês tem, na verdade, três alfabetos diferentes:

  • Kanji: é a parte central do alfabeto japonês, e a maioria das palavras é escrita com ele. Tem mais de 40 mil caracteres diferentes, mas na escola “só” se aprendem 1945 deles. Mas cada caractere representa uma ideia, e não necessariamente um som (como as letras do nosso alfabeto). Complicado.
  • Hiragana: é o alfabeto mais comum do país. São 48 caracteres/sílabas que representam situações do dia-a-dia em palavras orientais.
  • Katakana: parecido com o hiragana, mas a grande diferença é em seu uso. Seus 48 caracteres/sílabas representam palavras estrangeiras, como nomes, países e produtos.

E por fim o chinês, com mais de três mil ideogramas, podendo ser escritos no estilo tradicional ou no simplificado. Cada ideograma também significa uma ideia, e não um som. Por exemplo: : significa “amor” (substantivo) ou “amar” (verbo).

Para nós, meros mortais, aprendermos chinês, existe o método Pinyin, que consiste na escrita romanizada dos ideogramas. Como assim?

Ideograma                     Pinyin                    Tradução

 我爱你                                                         Wǒ ài nǐ                                   Eu amo você

Dora Leiria

K-popper desde 2009, então decidi fazer um blog pra surtar <3 // K-popper since 2009, so I decided to make a blog to talk about it <3

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2 Discussion to this post

  1. Carol Fagundes disse:

    Isa, eu adorei sua matéria, de verdade!! Eu imagino o trabalhão que deve ter dado transcrever todas as entrevistas que você fez, selecionar o que você ia utilizar, etc… e sei que você fez tudo com muito carinho e dedicação!! Fiquei muito feliz e honrada de ver meu nomezinho ali <3 Também me bateu uma saudade desse dia, que foi muito legal e muito especial pra quem aprecia a cultura sul coreana! Que tenhamos cada vez mais eventos como esse!

    • Dora disse:

      Obrigada Carol <3333 fico ainda mais feliz por saber que você gostou! Deu trabalho mesmo hahahaha tinha quase 20 entrevistas!! Tomara que esse ano tenha ainda mais eventos, e que mais pessoas se interessem por eles <3 Obrigada mesmo pelo comentário!

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